julho 15, 2017

************* BRIGITTE BARDOT, a ETERNA MUSA



para ANDRÉ SETARO
(1951 - 2014) in memoriam


Ela marcou seu nome na história pela beleza estonteante. Numa época de estrelas glamourosas, surgiu de cabelos soltos, maquiagem leve e roupas despojadas, e de repente conquistou o mundo no final dos anos 1950. O símbolo sexual em questão, a francesa BRIGITTE BARDOT (Paris, França. 1934), revelada no drama erótico “E Deus Criou a Mulher”, de seu então marido, Roger Vadim. Desde que abandonou o cinema, aos 39 de idade, a formosa sereia vive reclusa, tornou-se vegetariana e é ativista dos direitos dos animais através da Fundação Brigitte Bardot. No entanto, seu posicionamento político radical sobre imigração e homossexualidade resultou em diversos processos, custando parte da popularidade conquistada no cinema, sendo hoje uma celebridade antipatizada.

Entre 1997 e 2003 ela foi processada por diversas entidades religiosas, devido a críticas aos imigrantes islamitas do seu país, e foi acusada de racismo e suposto incitamento anti-racial contra imigrantes, chegando a ser condenada a pagar 5 mil euros de multas em corte. Por comentários recebidos como insultuosos aos homossexuais, feitos no seu livro de 2003, “A Scream in the Silence”, sofreu processo. Em junho de 2008, foi condenada pela quinta vez num processo de incitação ao racismo, sendo obrigada a pagar 15 mil euros de multa.

Chamada pela mídia sensacionalista de “devoradora de homens”, pela rapidez com que terminava seus relacionamentos e pela quantidade deles, seus filmes ficavam lotados por plateias formadas, em sua maioria, por homens. Ela também agradava às mulheres, que desejavam viver como ela, um Don Juan de saias que escolhia seus amantes e os largava. No período, era chocante. As leitoras se regalavam com a leitura do folhetim da sua vida amorosa. 

A atriz casou-se quatro vezes: o primeiro aos dezoito anos com Roger Vadim, cineasta que a descobriu e a lançou ao estrelado, de 1952 a 1957; o segundo, de 1959 a 1962, com o ator Jacques Charrier, do qual teve seu único filho, Nicolas-Jacques Charrier, que negligenciou; o terceiro, entre 1966 e 1969, com o playboy multimilionário alemão Gunter Sachs; o quarto e último foi em 1992, aos 58 anos, com Bernard d'Ormale, ex-conselheiro do político de extrema-direita Jean-Marie Le Pen e que perdura até hoje. Além dos quatro maridos, viveu romances com os atores Jean-Louis Trintignant e Sami Frey, os cantores Gilbert Bécaud, Serge Gainsbourg e Sacha Distel, o escritor John Gilmore e o escultor Miroslaw Brozek.

Ao longo da vida, BRIGITTE BARDOT foi maltratada. Seus pais desejavam um filho homem. “Você é feia, burra e má”, dizia a mãe dela, resumindo, diante da criança desventurada pelo uso de um aparelho dentário e óculos de lentes grossas. Amblíope, ela não enxerga de um olho. Fez aulas de dança e música na infância. Na adolescência tentou a carreira de modelo e foi parar na revista “Elle” aos 15 anos. Estreou no cinema em 1952, em “Le Trou Normand”, de Jean Boyer, ao lado do comediante Bourvil. Depois de alguns filmes sem repercussão, em 1956 protagonizou o grande sucesso “E Deus Criou a Mulher”, que a consagrou internacionalmente. Fazendo o papel de Juliette, dona de um voraz apetite sexual, vestido molhado colado no corpo, tornou-se uma das mais perfeitas sínteses da sensualidade feminina.

o casamento com vadim 
Na moralista Hollywood dos anos 1950, onde o maior símbolo sexual, Marilyn Monroe, no máximo aparecia nas telas de maiô, seu perfil erótico desnudo a transformou numa aposta arriscada para os estúdios, e isso, além do sotaque e inglês limitado, impediram-na de fazer carreira no cinema norte-americano. De qualquer modo, ela se tornou uma das mais famosas atrizes europeias da década de 1960 e um dos maiores símbolos sexuais de todos os tempos. Fez 43 filmes, gravou muitas canções populares e chocou o mundo com seus amores e cenas de nudismo.

Em 1962, diante do juiz, compenetrada, com um ar altamente dramático, a bombshell francesa disse: “É tudo mentira!”. A cena impressionou. Ela compareceu ao tribunal para defender Samy Frey no processo que este ator movia contra a revista “Ici Paris”, que publicou uma reportagem jurando que ele andava impondo o seu amor à sua companheira de “A Verdade”. Frey, segundo a revista, obrigara a atriz, entre outras coisas, a pedir divórcio de Jacques Charrier, e a viver isolada numa casa com cães ferozes soltos a fim de impedir a entrada de repórteres e fotógrafos. A estrela negou tudo. Entretanto, teve um relacionamento amoroso complicado com Frey, como mais adiante confirmou.

Durante três décadas, de meados dos anos 1950 aos 1970, os paparazzi perseguiram a estrela infeliz – como ela mesma se definia publicamente. “Eu daria tudo por uma vida obscura, como a de uma simples dona de casa”, desabafou certa vez e, meses depois, foi encontrada com os pulsos cortados na sua casa de campo, na Riviera. Engoliu várias pílulas para dormir e cortou os pulsos com uma gilete. Ao ver sangue, desmaiou, sendo socorrida por um agricultor das vizinhanças. Além disso, ela chegou a ser cuspida e apedrejada pelo público. A estrela também teve câncer de mama e o curou.

Em 1964 veio ao Brasil com o namorado Bob Zagury, hospedando-se em Búzios, que ficou famosa após sua visita. Em sua homenagem, a prefeitura da cidade criou a Orla Bardot, na Praia da Armação, e instalou uma estátua de bronze da atriz em tamanho natural. O local é visitado por centenas de turistas. Em sua biografia, ela registrou que os períodos passados na região foram os mais lindos de sua vida. Com sua audácia, BRIGITTE BARDOT derrubou velhos tabus, assumindo-se como símbolo de uma sexualidade libertária. Ela subia a temperatura de plateias em todo o mundo. Ainda hoje, desleixada e amargurada, não eclipsou o mito erótico.


OS MELHORES FILMES de BB

01
VIDA PRIVADA
(Vie Privée, 1962)
de Louis Malle
com: Marcello Mastroianni

02
A VERDADE
(La Vérité, 1960)
de Henri-Georges Clouzot
com: Paul Meurisse, Charles Vanel, Samy Frey,
Marie-José Nat e Jacques Perrin

03
O DESPREZO
(Le Mépris, 1963)
de Jean-Luc Godard
com: Jack Palance e Michel Piccoli

04
AS GRANDES MANOBRAS
(Les Grands Manoeuvres, 1955)
de René Clair
com: Michéle Morgan, Gérard Philipe e Magali Noel

05
VIVA MARIA!
(idem, 1965)
de Louis Malle
com: Jeanne Moreau, George Hamilton e Paulette Dubost

06
AMAR É A MINHA PROFISSÃO
(En Cas de Malheur, 1958)
de Claude Autant-Lara
com: Jean Gabin e Edwige Feuillère

07
EU SOU O AMOR
(À Coeur Joie, 1967)
de Serge Bourguignon
com: Laurent Terzieff e Jean Rochefort

08
E DEUS CRIOU A MULHER
(Et Dieu... Créa La Femme, 1956)
de Roger Vadim
com: Curd Jurgens e Jean-Louis Trintignant

09
A MULHER E O FANTOCHE
(La Femme et Le Pantin, 1959)
de Julien Duvivier
com: Antonio Vilar, Lila Kedrova e Daniel Ivernel

10
DESFOLHANDO A MARGARIDA
(En Effeuillant a la Marguerite, 1956)
de Marc Allégret
com: Daniel Gélin

GALERIA de FOTOS

julho 08, 2017

****** KENJI MIZOGUCHI - SERENIDADE e VIOLÊNCIA

“utamaro e suas cinco mulheres”

Há um culto a KENJI MIZOGUCHI (1898 – 1956). Jean-Luc Godard, nos seus tempos de crítico, foi o guardião do mito. Traumatizado pela falência familiar, que levou os pais a vender sua irmã a uma casa de gueixas, o cineasta japonês construiu uma carreira marcada pela indignação, perseguindo sentimentos em estado de pureza: honra, dever, lealdade, amor e justiça. Poucas vezes o cinema viu em um autor tamanho rigor formal com igual medida de extremismo moral. Nele, a noção de sacrifício decorre naturalmente da necessidade de expurgação, único meio que seus personagens encontram para superar a corrupção humana.

O autor do clássico “Contos da Lua Vaga” (1953) viveu um importante período de transição cinematográfica, passando da fase do cinema mudo ao falado, e do preto-ebranco ao colorido. Dos seus filmes da fase muda, destacam-se algumas obras-primas e já se notam  características que iriam nortear as seus dramas mais importantes: ênfase em costumes emocionais tipicamente japoneses, influência do expressionismo alemão, e interesse por mulheres reprimidas, seus sacrifícios e sabedoria.

ayako wakao e mizoguchi
Em 1897, plateias do Japão tomaram conhecimento de uma nova forma de entretenimento, através da demonstração do sistema de projeção de filmes da Vitascope, empresa norte-americana. O primeiro filme produzido no país foi o documentário de curta-metragem “Geisha no Teodori”, em 1899. Enquanto no mundo inteiro o cinema era mudo, no Japão os filmes eram parcialmente sonorizados com a presença do benshi, uma pessoa que reproduzia os diálogos do filme, interpretando as vozes dos vários personagens durante a projeção – uma espécie de dublador ao vivo. Os filmes japoneses desse período em geral retratam aventuras de samurais injustiçados, e o principal expoente dessa época foi o trabalho de KENJI MIZOGUCHI.

O terremoto de 1923, o bombardeio de Tóquio durante a Segunda Guerra Mundial, assim como os efeitos naturais do tempo e da umidade nas frágeis películas destruíram a maior parte dos filmes realizados pelo diretor no período. Na fase do sonoro surgem suas obras mais significativas. Já no período posterior à Segunda Guerra, destacam-se os filmes que tiveram a atriz Kinuyo Tanaka no papel principal, como “Oharu, a Vida de uma Cortesã” (1952), onde alcançou a excelência de sua arte. Tragédia de cunho realista, que narra a história de uma mulher dominada pelo sistema feudal, possui uma estrutura narrativa marcada por visão oriental silenciosa e sugestiva, expressada através da linguagem que marcou o diretor: o método onde a câmara se fixa longamente numa tomada, aumentado a dramaticidade através da plástica. Esse drama de época conquistou o prêmio de Melhor Direção no Festival de Veneza, no ano de 1952.

oharu - a vida 
de uma cortesã
Considerado um dos cineastas mais importantes da história do cinema, KENJI MIZOGUCHI morreu em 1956, aos 58 anos de idade, vencido pela leucemia. Dirigiu o primeiro filme em 1923, realizando mais de 80 títulos, sendo seu maior sucesso, “Contos da Lua Vaga”, brilhante e poética reconstituição do passado, num realismo que aponta os prolongamentos do sistema feudal no Japão contemporâneo. De grande beleza visual, premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1953, tem como protagonista a formosa e excelente Machiko Kyo (de “Rashomon / Idem”, de Akira Kurosawa, 1950).

É um dos meus filmes favoritos. Ele constrói uma narrativa fantasmagórica. A história se passa no século 16, durante a guerra civil japonesa, e acompanha a viagem de pobre oleiro e seu cunhado com as respectivas mulheres rumo à capital da província onde vivem, nas redondezas do lago Biwa, para vender utensílios de cerâmica. As cenas filmadas no castelo, com a chegada da primavera, são de uma beleza sublime, reflexo do perfeccionismo do diretor. Seus filmes têm uma estética remanescente da arte japonesa, detalhista. Os longos planos, a mis en scéne rebuscada, a encenação pictórica, são frequentes. Ele raramente utilizava close ups, preferindo compor planos conjuntos.

Suas cenas podiam demorar pouco, mas sempre davam ênfase ao cenário, à luminosidade. Reza a lenda que ele repetia tomadas à exaustão, o que em muitos casos se tornaram um pesadelo, principalmente para suas atrizes. Sua preferência por planos longos significava que não havia espaço para erros: conta-se que, em alguns casos, ele chegou a rodar cem tomadas de um mesmo plano. A essa estética refinada soma-se o envolvimento do público com o tema, e à habilidade com que ele provoca simpatia pelos seus personagens, que em alguns casos são “endeusados” mas, no fundo, são apenas humanos.

kenji mizoguchi
O trabalho de KENJI MIZOGUCHI é bastante conhecido pela sua proteção feminina característica. A forma como ele filma Lady Wakasa (Machiko Kyo) em “Contos da Lua Vaga” é de uma delicadeza comovente. Ela está sempre em destaque. O diretor não era feminista, mas de certa forma revelou no cinema a posição feminina na sociedade japonesa como humilhante e oprimida, e demonstrou que as mulheres podem ser capazes de maior nobreza entre os sexos. Fez muitos filmes sobre os apuros das gueixas, mas seus protagonistas podem derivar de qualquer lugar: prostitutas, trabalhadores, ativistas de rua, donas-de-casa e princesas feudais.

Não se assemelha a nenhum outro autor do cinema japonês. Pela diversidade de obra - adaptou vários escritores ocidentais -, pela mistura de serenidade e violência, pode-se buscar, quem sabe, uma aproximação com Akira Kurosawa. O cinema de KENJI MIZOGUCHI tem força própria, é diferente, muito diferente.  Seu estilo é clássico, tomadas longas e sem close-ups, e preocupação humanista. Assistir aos seus filmes significa abrir uma janela diferente para a percepção oriental de temas universais, experimentando um determinismo dramático. Ele não consegue conter sua vocação inflexível na regeneração do homem. Tantas décadas passadas, a integridade de sua mensagem humanista ainda causa impacto, numa época em que se evidencia o esgotamento ético.

machiko kyo em contos da lua vaga

10 FILMES de MIZOGUCHI

AS IRMÃS DE GION
(Gion no Shimai, 1936)
Com: Isuzu Yamada e Yoko Umemura

CRISÂNTEMOS TARDIOS
(Zangiku Monogatari, 1939)
Com: Shotaro Hanayagi e Kakuko Mori

MULHERES DA NOITE
(Yoru no Onnatachi, 1948)
Com: Kinuyo Tanaka e Sanae Takasugi

PAIXÃO ARDENTE
(Waga Koi wa Moenu, 1949)
Com: Kinuyo Tanaka e Mitsuko Mito

OHARU – A VIDA DE UMA CORTESÃ
(Saikaku Ichidai Onna, 1952)
Com: Kinuyo Tanaka e Toshiro Mifune

CONTOS DA LUA VAGA
(Ugetsu Monogatari, 1953)
Com: Machiko Kyo e Masayuki Mori

OS AMANTES CRUCIFICADOS
(Chikamatsu Monogatari, 1954)
Com: Kazuo Hasegawa e Kyoko Kagawa

O INTENDENTE SANSHÔ
(Sansho Dayu, 1954)
Com: Kinuyo Tanaka e Yoshiaki Hanayagi

A PRINCESA YANG KWEI FEI
(Yokihi, 1955)
Com: Machiko Kyo e Masayuki Mori

RUA DA VERGONHA
(Akasen Chitai, 1956)
Com: Ayako Wakao e Machiko Kyo

kenji mizoguchi

junho 29, 2017

*** SPENCER TRACY – MEU ATOR FAVORITO



Apelidos: Spence, Pops.
Altura: 1.77 m


Admiro SPENCER TRACY (1900 - 1967) como intérprete e também gosto de sua figura: rosto forte, olhos inteligentes e voz áspera. O público amava seus vários personagens de ar bonachão. Os colegas o consideravam o melhor de todos. A divina Katharine Hepburn o amou como somente se ama no cinema. No entanto, este excelente ator tinha seu lado sombrio e torturado: alcoólatra, mal humorado e mulherengo. Foi uma das maiores estrelas de Hollywood, uma das figuras mais icônicas da “Idade de Ouro” do cinema clássico norte-americano, e um dos atores mais populares globalmente. 

Ele interpretou personagens que ficaram no imaginário popular e que ainda se fazem sentir, muito por “culpa” da energia e do toque especial que o atribuía a cada papel que desempenhava, uma característica que a ele ficou associada do primeiro ao último filme em que participou. As figuras inteligentes e psicologicamente complexas a que deu vida, em 37 anos de trabalho na indústria cinematográfica que resultaram em 75 filmes, são cativantes e inigualáveis, tal como o excepcional talento do artista.

clark gable e tracy em “san francisco”
Teve uma carreira plena. Respeitado pelos companheiros de profissão, tinha o carinho de um público que pouco sabia de sua faceta menos amável, a da personalidade difícil, do alcoolismo e da coleção de amantes jovens. Não foi casual que dois sacerdotes, o padre Tim Mullin de “San Francisco - A Cidade do Pecado / San Francisco” (1936) e o carismático Padre Flanagan de “Com os Braços Abertos / Boys Town” (1938) e de sua sequência “Somos Todos Irmãos / Men of Boys Town” (1941), ambos de Norman Taurog, foram responsáveis pelo salto ao topo de Hollywood. Esses papéis de cura e, também, do bondoso marinheiro português, mentor de um garoto mimado, no magnífico “Marujo Intrépido”, criaram no imaginário coletivo um perfil fantasioso de SPENCER TRACY, que não correspondia exatamente aos seus méritos de vida.

Na década de 1930 já falava-se do hábito que tinha de beber, mas nem todos sabiam sobre seus outros problemas: um católico que não acreditava em divórcio, um marido que não amava mais a mulher – porém, era a pessoa a quem ele mais respeitava -, um pai com dificuldades em aceitar a deficiência do filho surdo-mudo e um ator preso pela ganância dos estúdios. Após os 40 anos passou a ter sérios problemas de saúde causados pela bebida. Suas crises de bebedeira geravam melancolia e mal humor. Nem Kate Hepburn escapava do sarcasmo. Mesmo assim, ficavam juntos todo o tempo possível. Adoravam pintar juntos. 


tracy e bette davis 
na cerimônia do oscar
Dele se recorda, acima de qualquer coisa, desse romance extramatrimonial, que durou mais de 20 anos e as crônicas informativas da época protegiam. SPENCER TRACY manteve seu conturbado casamento, mas sua consciência religiosa não evitou que pulasse de cama em cama. Entre suas conquistas, contam-se celebridades como Myrna Loy, Loretta Young, Ingrid Bergman, Lana Turner, Gene Tierney e Grace Kelly. Também já foi escrito sobre seu perfil homossexual, relacionando-se com o jovem John Derek e outros aspirantes na Meca do cinema.

Ao mesmo tempo, eram conhecidas suas reclusões em quartos de hotel, carregado de garrafas de uísque, que consumia durante dias até perder os sentidos. Dizem que era torturado por uma realidade familiar que detestava. “Ninguém bebia, brigava, nem criava mais problemas que o jovem Spencer”, afirmou o produtor-cineasta Stanley Kramer, que o dirigiu em quatro ocasiões. SPENCER TRACY nasceu a 5 de abril de 1900 em Milwaukee, no Wisconsin. Passou sete anos da sua carreira pisando nos palcos teatrais, trabalhando com diversas companhias e fazendo sucesso na Broadway. Graças ao teatro chegou ao cinema: em 1930, o papel principal que interpretou na peça “The Last Mile”, de John Wexley, que teve quase trezentas representações, surpreendeu as audiências e chamou a atenção dos estúdios de Hollywood.

Nos seus primeiros anos, ele filmaria sem parar na Fox, firmando um nome ainda sem estrelato. Os filmes dessa época mostram sua pior face, herança do caráter tipicamente irlandês e de uma infância difícil curtida em mil e uma brigas de rua. Não se sabe exatamente a razão dele deixar o estúdio que deu sua primeira oportunidade, talvez a confusão provocada no set de “A Nave de Satã / Dante's Inferno” (1935) com o vingativo produtor Darryl F. Zanuck. No primeiro filme que interpretou, “Rio Acima / Up in the River” (1930), realizado por John Ford, teve outro ator lendário fazendo sua estreia: Humphrey Bogart. Contudo, esta primeira aparição foi inglória para ele e a fama não chegou tão depressa. Continuou desconhecido do público por mais vinte e cinco obras cinematográficas.

george o`brien e tracy em 1930
As coisas começaram a mudar, ao menos profissionalmente, ao ser contratado pela Metro-Goldwyn-Mayer. Foi o parceiro perfeito para Clark Gable (filmariam também os ótimos “Piloto de Provas” e “Fruto Proibido”) no sucesso “San Francisco – A Cidade do Pecado”, drama que deu a primeira de suas noves indicações ao Oscar. Brilhou na comédia “Casado com a Minha Noiva / Libeled Lady” (1936), com William Powell, Jean Harlow e Myrna Loy. Dois Oscar consecutivos, por “Com os Braços Abertos” e “Marujo Intrépido”, o levaram ao topo máximo merecido. Na Metro, o estúdio com mais prestígio na ocasião, a sua carreira floresceu e protagonizou uma série de filmes que obtiveram sucesso. Um deles foi a obra-prima “Fúria”. Realizado por Fritz Lang, é uma história de injustiça e vingança em que o ator oferece numa das suas mais poderosas performances, como Joe Wilson, homem inocente que é preso por um crime de rapto que não cometeu, destruindo sua vida pacata e correta.

Em 1923, ele casou-se com Louise Treadwell, tendo com ela dois filhos, John e Louise.  Em 1941, iniciou um relacionamento amoroso com Katharine Hepburn, o qual durou até sua morte.  Embora separado de sua esposa, ele nunca se divorciou dela e era figurinha fácil nos lugares da moda, sempre acompanhado de atrizes jovens e bonitas. A esposa desistiu da carreira de atriz definitivamente quando o filho de 10 meses foi declarado surdo. Desde então dedicou sua vida a ensinar o filho, e posteriormente outras mães e crianças, a formar sons, a ler e finalmente falar. 
spencer tracy e katharine hepburn
O ator sentia-se terrivelmente culpado e considerava mérito total da esposa o fato do filho poder frequentar uma escola. Em 1941, Louise conseguiu fundar a Clinica John Tracy. Ela entendia a frustração de SPENCER TRACY, sempre o apoiando e não o recriminando quando chegava em casa bêbado, vindo dos braços de outra ou as duas coisas. Ele não se perdoava por não conseguir comunicar-se com o filho e nem perdoava sua fraqueza pela bebida. Os fofoqueiros de Hollywood tinham tanto respeito pelo trabalho social dela que evitavam divulgar qualquer coisa ruim. O casamento era só no papel e o fato do ator se recusar a divorciar-se trazia certa simpatia.

Quando George Stevens o convidou para compartir protagonismo com Katherine Hepburn em “A Mulher do Dia”, a história de Hollywood mudou para sempre. Não somente pelo que aconteceu além das filmagens. Fundamentalmente pela química que tinham. A dupla funcionou tão bem, tanto em termos artísticos como lucrativos, que os dois atores voltaram a juntar-se no cinema por mais oito ocasiões. A forma mágica e sempre divertida com que contracenam um com o outro originou filmes que ficaram na história. Conta a lenda que, em seu primeiro encontro com Tracy, apresentada pelo diretor e roteirista Joseph L. Mankiewicz, Hepburn disse: “Tenho a impressão que sou um pouco alta para o senhor, senhor Tracy”. Spencer respondeu: “Não se preocupe, senhorita Hepburn. Eu a reduzirei ao meu tamanho”. Continuou para a vida a dúvida sobre quem disse essa última frase, pois os três presentes assumiram a autoria.

louise, a esposa de tracy
Dentre os títulos que fizeram juntos, destacam-se “A Costela de Adão”, um jogo cômico perfeito, cheio de réplicas e contrarréplicas, pura guerra dos sexos, e “Adivinhe Quem Vem Para Jantar / Guess Who's Coming to Dinner” (1967), de Stanley Kramer, amável narrativa em defesa dos direitos civis, que rodaram quando SPENCER TRACY já estava muito doente. Pouco depois da última cena gravada, em 10 de junho de 1967, faleceria vítima de um ataque cardíaco. Foi nomeado pela nona vez, postumamente, ao Oscar, por esta interpretação, que deu um ponto final a uma brilhante e extensa carreira, repleta de êxitos e de personagens inesquecíveis que influenciaram várias gerações de atores. É ainda uma das figuras mais queridas do cinema, e a sua obra merece ser descoberta pelos cinéfilos do século XXI. “O que assombra as interpretações de Spencer, que as faz únicas, é que ele não faz o menor esforço. Surgem como algo natural”, analisou Kate Hepburn.

“A Mulher do Dia” conta a história de Tess (Katharine Hepburn) e Sam (Spencer Tracy). Eles trabalham no mesmo jornal, mas não gostam um do outro. Repentinamente, se apaixonam e se casam! Só que Tess é uma das mulheres mais feministas do país, e ganhou o prêmio de “Mulher do Ano”, o que a deixa muito ocupada e, por causa disso, em crise com o marido. O filme foi um sucesso absoluto de público e critica. Antes das filmagens, a atriz tinha assistido todos os filmes de Tracy, conhecia as histórias sobre mulheres e bebidas, mas também sabia sobre o profissionalismo. Ele jamais aparecia embriagado ou incapaz de dar o melhor de si. Já o ator não conhecia o trabalho da colega, e pediu uma cópia de “Núpcias de Escândalo / The Philadelphia Story” (1940). Depois comentou: “É uma danada de boa atriz”. Suspeitava de mulheres que vestiam calça, mas gostou do roteiro e concordou em filmar com Kate.

Quando a atriz começou a trabalhar em “A Mulher do Dia”, ela e George Stevens estavam saindo há seis meses e o fato de ter insistido para que ele fosse o diretor levantou muitas especulações. Logo no inicio das filmagens foi constatado a química entre Kate e Spencer. Stevens afastou-se e todos percebiam o que estava acontecendo. Mas a consideração que ele tinha pela esposa era inabalável. Se os dois fossem manter um relacionamento, esse seria clandestino. Quando as filmagens terminaram, os dois estavam extremamente apaixonados. SPENCER TRACY até parou de beber por um tempo.

Ele continuaria a obter êxitos e aclamações durante os anos 1940 e nos anos 1950. Em 1955, um ano antes de sair da M-G-M, protagoniza um dos filmes mais conhecidos entre os que fez no estúdio, e com o qual arrecadou a sua quinta nomeação da Academia: “A Conspiração do Silêncio”. Realizado por John Sturges, é um thriller sobre um forasteiro que chega a uma pequena cidade escondida nos EUA, onde descobre a existência de um segredo que é comum a todos os habitantes, o de um crime de que todos têm conhecimento, mas cujas circunstâncias e culpados guardam silenciosamente entre si, com medo das consequências que a revelação dos fatos possam ter naquela aparentemente pacífica comunidade.

A partir de 1956, ao ganhar a “independência”, fez outros tipos de trabalhos cinematográficos, e apesar de ter sofrido algumas experiências menos positivas, no final desta década deixou mais dois papéis memoráveis, ambos de 1958. O protagonista da adaptação de “O Velho e o Mar / The Old Man and the Sea”, de Ernest Hemingway, num filme assinado por John Sturges e co-dirigido por Henry King e Fred Zinnemann, em interpretação que lhe valeu nomeação ao Oscar. E dirigido novamente por John Ford no drama político “O Último Hurrah”, sobre os bastidores de uma eleição numa cidadezinha, onde o prefeito Frank Skeffington (interpretado pelo ator) concorre pela última vez ao cargo que desempenhou durante vários mandatos.

nos anos 50, tracy e grace kelly
A saúde do ator começou a deteriorar-se nos primeiros anos da década de 1960, e apesar de rejeitar alguns papéis que poderiam ter sido marcantes na sua filmografia (“Horas de Desespero /  Desperate Hours”, de Wyler, 1955; “A Casa das Amarguras / Ten North Frederick”, 1958; “Longa Viagem Dentro da Noite / Long Day's Journey Into Night”, de Sidney Lumet, 1962, com Katharine Hepburn; “O Leopardo / Il Gattopardo”, de Luchino Visconti, 1963; “Crepúsculo de Uma Raça / Cheyenne Autumn”, de John Ford, 1964; “A Mesa do Diabo / The Cincinnati Kid”, de Norman Jewison, 1965), continuou brilhando em fitas de Stanley Kramer. Em 1961 foi a vez de “Julgamento em Nuremberg”, que a Academia também o distinguiu na sua lista de nomeados, brilhando como um dos juízes que integrou os processos de condenação de vários dos envolvidos num dos maiores crimes que a humanidade conheceu: o holocausto.

O seu estado piorou cada vez mais, o que fez com que se afastasse dos filmes durante algum tempo e cancelasse participações em vários projetos, voltando apenas em 1967 para a sua quarta colaboração com Kramer, naquela que foi a sua última interpretação e a derradeira vez em que contracenou com a companheira de longa data: “Adivinhe Quem Vem Jantar”. Os 25 anos que separam seu primeiro e último filme com Katharine Hepburn, mostram o ator em plena madureza interpretativa, legando atuações impecáveis em “O Papai da Noiva” e sua sequência, “O Netinho do Papai / Father's Little Dividend” (1951), e “A Lança Partida”.

Ator formidável, SPENCER TRACY é daqueles que relativam a importância da profissão: “Por que os atores acreditam que são tão malditamente importantes? Não somos. Atuar não é um trabalho importante no sistema das coisas. O encanador sim, faz um trabalho importante. A nossa não é uma profissão muito exigente. Não precisa muito cérebro. Tampouco é o trabalho mais nobre do mundo, mas há coisas mais baixas que atuar. Não muitas, talvez a classe política seja mais baixa”, declarou em uma entrevista.

FONTE
“Fotogramas-Spencer” (2017), de Àlex Montoya; “Spencer Tracy: a Biografia” (1969), de Larry Swindel; “Spencer Tracy: Uma Biografia” (2011), de Leonard Maltin; “Spencer Tracy: a Vida” (2011), de James Curtis; e “Spencer Tracy - Hollywood's Favorite Actor” (2011), de Jeanine Basinger;


dr. jekyll e mr. hyde
em “o médico e o monstro”

SPENCER em 18 FILMES
(por ordem de preferência)

01
FÚRIA
 (Fury, 1936)

direção de Fritz Lang
com: Sylvia Sidney, Bruce Cabot e Walter Brennan

02
JULGAMENTO EM NUREMBERG
(Judgment at Nuremberg, 1961)

direção de Stanley Kramer
com: Burt Lancaster, Richard Widmark, Marlene Dietrich,
Maximilian Schell, Judy Garland e Montgomery Clift

03
BANDEIRANTES DO NORTE
 ('Northwest Passage' (Book I -- Rogers' Rangers), 1940)

direção de King Vidor
com: Robert Young, Walter Brennan, Ruth Hussey          

04
FRUTO PROIBIDO
(Boom Town, 1940)

direção de Jack Conway
com: Clark Gable, Claudette Colbert, Hedy Lamarr
e Frank Morgan

05
DOIS NO CÉU
(A Guy Named Joe, 1943)

direção de Victor Fleming
com: Irene Dunne, Van Johnson, Ward Bond,       
James Gleason, Lionel Barrymore e Esther Williams

06
A LANÇA PARTIDA
(Broken Lance, 1954)

direção de Edward Dmytryk
com: Robert Wagner, Jean Peters, Richard Widmark,
Katy Jurado e E.G. Marshall

07
CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO
 (Bad Day at Black Rock, 1955)

direção de John Sturges
com: Robert Ryan, Anne Francis, Dean Jagger,      
Walter Brennan, John Ericson, Ernest Borgnine
e Lee Marvin

08
TRINTA SEGUNDOS SOBRE TÓQUIO
 (Thirty Seconds Over Tokyo, 1944)

direção de Mervyn LeRoy
com: Van Johnson, Robert Walker, Phyllis Thaxter,
Stephen McNally e Robert Mitchum

09
A SÉTIMA CRUZ
 (The Seventh Cross, 1944)

direção de Fred Zinnemann
com: Signe Hasso, Hume Crony, Jessica Tandy
e Agnes Moorehead

10
A COSTELA DE ADÃO
 (Adam's Rib, 1949)

direção de George Cukor
com: Katharine Hepburn, Judy Holliday, Tom Ewell,        
David Wayne, Jean Hagen e Hope Emerson

11
20.000 ANOS EM SING SING
(20,000 Years in Sing Sing, 1932)

direção de Michael Curtiz
com: Bette Davis e Louis Calhern

12
O PAPAI DA NOIVA
(Father of the Bride, 1950)

direção de Vincente Minnelli
com: Joan Bennett e Elizabeth Taylor

13
O ÚLTIMO HURRAH
 (The Last Hurrah, 1958)

direção de John Ford
com: Jeffrey Hunter, Dianne Foster, Pat O'Brien,
Basil Rathbone, Donald Crisp, James Gleason         
e Ricardo Cortez

14
O MÉDICO E O MONSTRO
(Dr. Jekyll and Mr. Hyde, 1941)

direção de Victor Fleming
com: Ingrid Bergman, Lana Turner, Donald Crisp
e C. Aubrey Smith

15
MARUJO INTRÉPIDO
(Captains Courageous, 1937)

direção de Victor Fleming
com: Freddie Bartholomew, Lionel Barrymore e Melvyn Douglas

16
A MULHER DO DIA
 (Woman of the Year, 1942)

direção de George Stevens
com: Katharine Hepburn, Fay Bainter e Reginald Owen

17
A UM PASSO DO FIM
(The People Against O'Hara, 1951)

direção de John Sturges
com: Pat O'Brien, Diana Lynn, John Hodiak,
Eduardo Ciannelli e James Arness

18
PILOTO DE PROVAS
(Test Pilot, 1938)

direção de Victor Fleming
com: Clark Gable, Myrna Loy, Lionel Barrymore
 e Marjorie Main

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